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sexta-feira, 2 de junho de 2017

Tinha um Mano no meio do caminho


            A Chapecoense precisava de apenas um gol para ficar com a vaga no confronto com o Cruzeiro, pela Copa do Brasil. Em um dado momento, Reinaldo, do time anfitrião, se preparava para alçar um lateral na área celeste. Foi quase interrompido por um corpo estranho. Até riu de nervoso quando identificou o objeto.
Drummond ainda pôde dizer que tinha uma pedra no meio do caminho. As pedras que figuravam no sul do país tinham o ardil de se colocar no meio do caminho para conseguir algum benefício. Com alguma surpresa, as retinas fatigadas do atleta de Chapecó acabaram esbarrando não com uma poética rocha, mas sim com um bruto Mano Menezes, que insinuou o bloqueio do itinerário do defensor alviverde. E no meio do caminho tinha um antijogo.

            Réu confesso, o comandante do Cruzeiro afirmou que deu um passo deliberado para o lado a fim de atrapalhar o adversário. E ainda descreveu o lance como se fosse parte do jogo. Um líder se constrói pelos gestos do dia a dia, com exemplos de vivência. Ainda que pareça uma tática pueril, besta, a atitude de Mano exala desonestidade e inspira o elenco pelo lado negativo. Chega a ser bizarro ver o lance. Eu mesmo precisei assistir umas cinco vezes para ter certeza de que o treinador gaúcho havia cometido tamanho gesto grotesco. E pior ainda foi constatar que o próprio técnico não teve pudores em confessar o exótico crime. E eu nunca me esquecerei desse acontecimento.

Para quem não viu a cena: Tinha um Mano no meio do caminho

quarta-feira, 26 de abril de 2017

"Fair Play"


Em 12 de julho de 1998, aos 30 minutos do segundo tempo, com o jogo final em 2 a 0 para a França, o meia Rivaldo decidiu devolver a bola para os oponentes. O resultado disso foi que Edmundo quase agrediu o autor da cortesia. Comentando o jogo para a Rede Globo, Romário fez eco à fúria do animal e ainda duvidou da contusão de Zidane, que estava caído no gramado. Recentemente, no programa Bola da Vez, da ESPN, o baixinho voltou a criticar o fair play, mais especificamente em uma situação envolvendo Rodrigo Caio e Jô. Pelo menos a distância de quase vinte anos nos permite ver que Romário é fiel às suas convicções.
O ano de 2014 arquivou um lance bem inusitado. Um jogador do Dinamo Tbilisi, da Georgia, se contundiu e necessitou que o jogo fosse parado. O rival jogou a bola para que isso acontecesse. No entanto, quando foi devolver o gesto, o meia Xisco Muñoz, do Dinamo, deu um chutão e encobriu o goleiro do outro time. Gol involuntário. A solução foi deixar que o adversário fizesse o gol de empate para reparar o acidente.
A expressão inglesa “fair play” quer dizer jogo limpo. Isso se encaixaria de várias maneiras no mundo do futebol. Poderíamos afirmar que é jogo limpo, por exemplo, preservar a integridade física do colega de profissão, devolver a bola depois de um gesto de solidariedade, socorrer o adversário em um acidente e manter a esportividade diante de resultados adversos. E nem sempre é o que vemos no mundo das quatro linhas. Por esse motivo, um gesto como o de Rodrigo Caio, zagueiro do São Paulo, que informou o juiz sobre uma questão que o desfavorecia, é tão incomum. Deveria ser regra, coisa corriqueira.
Segundo informações da mídia, observamos apoio e descontentamento dentro do próprio São Paulo. Alguns jornalistas informaram sobre o ataque de fúria de Rogério Ceni depois do intervalo, quando o tricolor já perdia por 2 a 0. E também há a declaração de Maicon, que afirmou preferia ver a mãe do adversário do que a dele, em desaprovação ao gesto de seu companheiro de zaga. O destempero se ampara no fato de que Jô estaria suspenso se Rodrigo não tivesse alertado o juiz. Como em uma tragédia grega, o autor do gol do Corinthians (em impedimento) foi Jô. Depois disso, a imprensa pediu a Ceni que dissesse se Jô teria que ter fair play no lance. Insinuavam que o atacante teria que se acusar na irregularidade. Seria possível? Ou você pensa que um jogador seja capaz de medir um lance de centímetros de infração em todos os lances equivocados?
A verdade é que os dirigentes, torcedores, a mídia e jogadores deixaram que o futebol virasse uma batalha campal. Eu não acredito que o futebol seja um mero esporte, mas não creio que cada jogo e cada lance controverso tenha que ganhar ares de batalha entre Trump e Kim Jong-Un. O esporte bretão necessita de uma leveza bem maior.
Também não é saudável se render ao lado extremo do politicamente correto. Os gols de qualquer tipo (exceto com a mão), um drible desconcertante, canetas, balões e o drible da foquinha (lembram do Kerlon?) são parte do repertório do futebol como arte. E tem que esbraveje contra isso e contra certos tipos de comemoração. Garrincha não se criaria nesses mundos alternativos que o politicamente correto extremo gera. Ser desonesto de forma deliberada é que não faz bem ao mundo do futebol. Mais Rodrigos Caios, menos Del Neros.