segunda-feira, 28 de março de 2016

Linha do Equador


As Eliminatórias Sul-Americanas começaram a ser disputadas com o atual formato, com todos se enfrentando em sistema de turno e returno, em 1998, para o que seria a Copa do Mundo da França. Como o detentor do título de 1994, o Brasil não precisou disputar a fase classificatória da Copa do Mundo seguinte. Antes disso, a elaboração das Eliminatórias era feita por zona, sendo que a fórmula mais conhecida costumava separar os países em dois grupos, com cinco e quatro países, classificando automaticamente os primeiros e segundos colocados dos grupos e deixando para o melhor terceiro a missão de enfrentar seleções da Oceania na repescagem.
Ao longo desse tipo de disputa, o Brasil amargou onze derrotas, sendo a mais traumática a primeira da série, em 1993, quando enfrentou a Bolívia, em La Paz, e perdeu por 2 a 0. O time sentiu os efeitos da altitude de 3600 metros e um futebol de nível razoável comandado com Etcheverry e Erwin Sanchez. Para acabar de completar, o goleiro Taffarel, que havia feito uma defesa em um pênalti, sua especialidade, fez um gol contra em cruzamento esquisito de Peña (o gol acabou sendo atribuído ao meia boliviano). O dia seguinte jogava a seleção de Carlos Alberto Parreira como território dizimado. Taffarel, um dos maiores arqueiros brasileiros de todos os tempos, sofreu um linchamento público; a defesa passou a ser lenta; Mauro Silva e Luis Henrique eram burocratas. Os gritos por Romário passaram a ecoar até o jogo contra o Uruguai, no mesmo ano de 1993, com o Maracanã em surto coletivo. A exceção foi a cidade de Recife, que assistiu a revanche entre Brasil e Bolívia, com o escrete canarinho aplicando uma saraiva por 6 a 0.
Na fatídica derrota para a Bolívia, o zagueiro Quinteros, um argentino naturalizado boliviano, estava escalado como titular. Esse ex-jogador agora volta à ribalta como técnico da seleção do Equador, a atual líder das eliminatórias, com treze pontos em cinco rodadas. É importante dizer que os equatorianos já enfrentaram Argentina(fora) e Uruguai(casa) dentro dessa sequência. Essa arrancada inicial fez o Equador colocar três pontos de vantagem no Uruguai e cinco em um pelotão que tem Brasil, Paraguai e Argentina. Com um jogo baseado em velocidade nas extremas e marcação intensa no campo adversário, o treinador boliviano se diz inspirado pelos esquemas do Barcelona de Johan Cruyff e o Milan de Arrigo Sacchi. Nomes como Bolaños, Noboa, Erazo, Valencia e Cazares passaram a ser cotados no mundo do futebol.
Acostumados a ver Argentina e Brasil na liderança desse tipo de competição há um longo tempo, com rápidas e boas figurações de Colômbia, Chile e Uruguai, o torcedor se pergunta se esse Equador terá força para resistir até a última rodada no topo da competição. A verdade é que um time modesto como o inglês Leicester derrubou uma série de paradigmas (posse de bola, jogo baseado no contra-ataque e jogadores desconhecidos) e apostou na força do conjunto. Conjunto e obediência tática que a seleção do treinador Quinteros tem exibido aos montes em um trabalho de pouco mais de um ano.
A lógica seria apostar em vitórias da Argentina (Bolívia/ em casa) e Uruguai (Peru/ em casa) e derrota do Equador (Colômbia/ fora), o que embolaria completamente a tabela de classificação. Só que é importante ressaltar que essa seleção equatoriana já ganhou duas partidas em território inimigo. Quanto ao Brasil, sem Neymar e em franca queda técnica e psicológica, um empate já está de bom tamanho contra o Paraguai, em Assunção. A camisa oficial da seleção brasileira tem sido mais usada nas manifestações contra o governo do que por orgulho do futebol exibido pelos comandados de Dunga. A blusa amarela de destaque, inacreditavelmente, passou a ser outra em 2016. Melhor futebol do mundo? Só nos lábios de Galvão Bueno. Assim como a primeira derrota veio na altitude, o inédito jogo na Oceania ainda pode acontecer no caminho para a Rússia.

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